sábado, 23 de abril de 2016

guerra é guerra
não há tempo
para trégua
ininterruptamente
avança a destruição
a usina do lucro
e do enlatado

mas não há tempo
para a vida vazia
não há tempo
para o silêncio complacente
há milhares de cabeças rolando
e aqueles que as decepam
poucos estão pensando

na poesia, há os que acreditam
e se escondem nas trincheiras
bradam: - não há por que desistir
a guerra continua
acredite ou não
sempre haverá fogo
na linha de frente

domingo, 14 de fevereiro de 2016

É fato que sua mulher nunca lhe quis
porque você não leu Machado de Assis.

Sem dúvida sua mulher ainda não lhe quer,
porque você nunca leu Charles Baudelaire.

Eu sei que sua mãe é manca,
e que você não ouviu falar de Florbela Espanca.

Eu sei que sua bunda dói,
e que você não terminou o livro do Tolstói.

Eu sei o que você lê ao cagar,
é claro que é um livro de José de Alencar.

Eu sei que seu espírito é bovino,
você não leu Ítalo Calvino.

Eu não vou te mandar tomar no cu,
porque você nunca folheou o Popol Vuh.

Eu sei que sua musa coça a boceta,
ao ler Antonio Skarmeta.

E como você é pedante, citando a Comédia,
sem nunca ter lido Dante.

Sua música preferida do Roberto é a do Cadilac,
porque você nunca pegou uma carona com Kerouac.

Eu sei que seu pensamento é reles,
você nunca leu um poema de Cecília Meireles.

Você é adestrado como um pônei,
nem sequer leu algum texto de Aleister Crowley.

Eu sei que na briga você se esconde,
nunca leu “The cantos” de Erza Pound.

Eu sei por que você não goza,
não entende nada de Guimarães Rosa.

Eu sei que seus amigos são cuzões,
nunca leram um verso de Luís Vaz de Camões.

Você só diz: “Deus me acuda”
e ainda não leu Pablo Neruda.

Você só deixa todo mundo na mão,
não ouviu falar de Wally Salomão.

Eu sei que você não se preza,
não leu o último livro do Cristovão Tezza.

Você tem intestino solto,
não passa da primeira página de Mia Couto.

Para a vida só diz: “quem me dera”,
nunca leu Milan Kundera.

Você é um bosta,
não leu Júlia da Costa.

Você nem sequer ousa,
não conhece um soneto de Cruz e Souza.

Você pensa que tudo é farra,
nunca leu os poemas de Nicanor Parra.

Eu sei que você é um sacana,
não consegue sentir um verso do Quintana.

E tudo que sua mulher lhe diz:
é que prefere quando você a fode do que ler a sua ode.





quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Poemas de Roberto Santoro

Algunas cosas
un viento que se llevó la alegría
y la luna de los dedos
ahora se golpean las cosas con mis ojos
y ventanales de azufre registran la catástrofe

se derrama el misterio como un papel ajado
atropellando nuestro circo de asombro
todo el esperar castillos y brujas para salirnos del cuerpo
como buscando los ángeles
los barriletes huidos
esos interminables bosques de lobos y caperuzas
esas casas de chocolate
de enanos y gigantes
esos silencios de la siesta en que uno cree volver al beso

y cuando echaste no sin esfuerzo los ojos tras la magia
te despiertan
para erigir estatuas que ruedan la mentira
la sinrazón entre bostezos de sangre
el odio pero con nuevas palabras
y todo lo que callo
y todo lo que olvido
y entonces te componen su esfuerzo avinagrado
y creen en los ojos leyendo el abandono
y guardan la estulticia dormida tras la boca
enumerando estrellas
pájaros
canciones

es el momento en que te adentran sus lenguas de huracán
restallando los enigmas que anhelaste
es el momento en que quisieras vestirte de venganza
y hundir sus necios alfabetos
su estar de lacerías
su acopiado cenegal de estiércol
esa ínfima saciedad con el destrozo
el incontrolable idioma con que destierran la vida
robándote el silencio
hiriendo las entrañas de tu sueño
y dejándote como un payaso solo
y entonces te dan ganas de gritar
de no querer el mismo cuerpo
y el escalofrío del insulto se queda como un tonto por los ojos
y se te desgarra adentro como una cosa inquieta
y entonces te dan unas ganas raras de llorar
de caerte muerto
y convertirte en globo
o en lluvia de organitos
qué sé yo

cada día se nos muere un hermano

Algumas coisas

um vento que levou a alegria
e a lua dos dedos
agora se golpeiam as coisas contra meus olhos
e vendavais de enxofre registram a catástrofe

se derrama o mistério como um papel alado
atropelando nosso circo de assombro
todo o esperar de castelos e bruxas para sairmos do corpo
como que buscando os anjos
os barris furados
esses intermináveis bosques de lobos e capuzes
essas casas de chocolate
de anões gigantes
esses silêncios da cesta em que um crê voltar ao beijo
e quando rompeste não sem esforço os olhos da magia
te despertam
para construir estátuas que cercam a mentira
a irracionalidade do espalhamento de sangue
o ódio, mas com novas palavras
e tudo que calo
e tudo que esqueço
e então te compõem seu suor diário
e crêem nos olhos lendo o abandono
e guardam o tóxico adormecido atrás da boca
enumerando estrelas
pássaros
canções
é o momento em que se adentram suas línguas de furacão
retalhando os enigmas que escolheste
é o momento em que quiseras vestir-te de vingança
e fundir seus néscios alfabetos
seu estar de adorno
seu estoque atolado de bosta
sua satisfação com os destroços
o incontrolável idioma com que desterram a vida
roubando-te o silêncio
ferindo as entranhas de teu sonho
e deixando-te palhaço solitário
e então te dá vontade de gritar
de não querer o mesmo corpo
e o calafrio do insulto fica cambaleando pelos olhos
e te desgarras adentro como uma coisa inquieta
e então te dá vontade de chorar
de cair morto
e converter-se em balão
ou em chuva de notas musicais
sabe-se lá o que
a cada dia que passa nos morre um irmão

safári

la poesia es uma escopeta
de dos caños

uno apunta a la verdad
el otro a la belleza

dispare

safári


a poesia é uma escopeta
de dois canos

um aponta para a verdade
o outro para a beleza

dispare

VIII

Hoy,
después de ver a una mujer
dejar caer a su hijo a través de una ranura
y disparar con su miedo a la oficina.

Hoy justamente
que un militar le prendio fuego a una biblioteca
y un funcionario se masturbaba al pie de una secretaria

Hoy,
precisamente hoy
que el juez de turno hizo pis arriba de los libros
y un colectivo mató una mariposa

Hoy que una muchacha me vendía sexo por un café con leche
y yo le hablaba de poesía.

Hoy,
exactamente hoy,
tuve que tirar el corazón por la ventana.

VIII

Hoje,
depois de ver uma mulher
deixar cair seu filho pela vulva
e disparar com medo ao escritório

Hoje justamente,
que um militar fez fogueira de uma biblioteca
e um funcionário tocava uma, ao pé de uma secretária

Hoje,
precisamente hoje
que o juiz mijou em cima dos livros
e um ônibus atropelou uma mariposa

Hoje que uma menina me vendia seu sexo por um pingado
e eu lhe falava de poesia.

Hoje,
exatamente hoje
tive de lançar meu coração pela janela.

Tradução: Rafael Walter


Roberto Santoro (1938- ? ) nasceu em Buenos Aíres, onde sempre lutou pelo ideal coletivo. Autor de diversos livros de poemas, sempre ilustrados por artistas como Pedro Gaeta e Oscar Smoje. Foi parceiro musical de Raúl Parentella, Lorenzo Quinteros e Jorge Cutello, foi editor de discos e também diretor teatral. Foi o “alma mater” da revista Barrilete e da editorial “Papeles de Bs. As.”. Membro do Partido Revolucionário dos Trabalhadores, militou ativamente na Frente dos Trabalhadores e da Cultura e na Frente Antiimperialista junto a Haroldo Conti e Humberto Constantini. No dia 1º de junho foi seqüestrado por um grupo executor de ordens da ditadura. Até hoje permanece desaparecido. 

domingo, 11 de outubro de 2015

marchinha para o carnaval de 2016

comprei minha geladeira
em vinte vezes no cartão
ta fácil não
ta fácil não

a minha vida é a prestação

ta fácil não 
ta fácil não
tá fácil não

somente o samba 

para remediar a situação
tá fácil não
tá fácil não

eu sigo a vida

e repito esse refrão
tá fácil não 
tá fácil não

a geladeira está fria

igual meu coração
tá fácil não
tá fácil não

sábado, 18 de julho de 2015

crianças invisíveis

um menino segura
uma arma na mão
onde deveria estar
um livro ou caderno

pirulito, skate, pipa ou peão
segue a vida com o olhar no horizonte
distante feito de carne
sangue e destroços

sua casa é feita de ossos
empilhados um a um
como se fossem tijolos
- seu olhar é triste

perdido qual transeunte
sem rota nem objetivo
a não ser
a guerra constante

que congela seu sonho
e o leva para longe
junto a inalcançável paz
a qual não se encontra mais
eu sou as calçadas sujas da cidade
e as ruas cheias de imundice
o pobre pedinte debaixo da marquise
o vagabundo maluco tomando tubão na rua XV
esquina com Marechal Deodoro

sou os punks e os drogaditos
que trocam suas vidas
pelo prazer suicida da noite

sou também as putas e os travestis
de maquiagem borrada às 2h da manhã
fazendo ponto na cruz machado

me chamam de cidade sorriso
mesmo com os dentes arrancados
e a cabeça encilhada
qual besta quadrada

sou a água da chuva
que escorre pelos bueiros
em que os ratos se divertem

sou a hipocrisia
do dono da padaria
que olha seu par de chinelos
antes de olhar em teus olhos

sou as estatísticas falsas da prefeitura
sem referência nem equiparação alguma
ostentadas nos totens da Clear Chanel

uma cidade humana
que deixa sua essência ir pelo ralo.
eu sou, eu sou mais um.

sábado, 13 de junho de 2015

poemas à revelia

poemas à revelia - rafael walter
formato A6
miolo papel sulfite 75g
capa papel color plus 120g / carimbo / gravura de maikel da maia
200 exemplares
2015

video

segunda-feira, 25 de maio de 2015