sábado, 27 de janeiro de 2018

El poeta y su poema

«Un poema es una pintura dotada de voz y una pintura es un poema callado.»
Proverbio oriental

La poesía es el lugar donde todo sucede. A semejanza del amor, del humor, del suicidio y de todo acto profundamente subversivo, la poesía se desentiende de lo que no es su libertad o su verdad. Decir libertad o verdad y referir estas palabras al mundo en que vivimos o no vivimos es decir una mentira. No lo es cuando se las atribuye a la poesía: lugar donde todo es posible.
( ... )
En oposición al sentimiento del exilio, al de una espera perpetua esta el poema -tierra prometida-. Cada día son más breves mis poemas: pequeños fuegos para quien anduvo perdida en lo extraño. Dentro de unos pocos versos suelen esperarme los ojos de quien yo sé; las cosas reconciliadas, las hostiles, las que no cesa de aportar lo desconocido; y mi sed de siempre, mi hambre, mi horror. Desde allí la invocación, la evocación, la conjuración. En cuanto a la inspiración, creo en ella ortodoxamente, lo que no me impide, sino todo lo contrario, concentrarme mucho tiempo en un solo poema. Y lo hago de una manera que recuerda, tal vez, el gesto de los artistas plásticos: adhiero la hoja de papel a un muro y la contemplo; cambio palabras, suprimo versos. A veces, al suprimir una palabra, imagino otra en su lugar, pero sin saber aún su nombre. Entonces, a la espera de la deseada, hago en su vacio un dibujo que la alude. Y este dibujo es como un llamado ritual. (Agrego que mi afición al silencio me lleva a unir en espíritu la poesía con la pintura; de allí que donde otros dirían instante privilegiado yo hable de espacio privilegiado.)
( ... )
Nos vienen previniendo, desde tiempos inmemoriales, que la poesía es un misterio. No obstante la reconocemos: sabemos donde está. Creo que la pregunta ¿que es para usted la poesía? merece una u otra de estas dos respuestas: el silencio o un libro que relate una aventura no poco terrible: la de alguien que parte a cuestionar el poema, la poesía, lo poético; a abrazar el cuerpo del poema; a verificar su poder encantatorio, exaltante, revolucionario, consolador. Algunos ya nos han contado este viaje maravilloso. En cuanto a mí, por ahora es un estudio.
Paris, diciembre de 1962

El poema y su lector

Si me preguntan para quien escribo me preguntan por el destinatario de mis poemas. La pregunta garantiza, tácitamente, la existencia del personaje. De modo que somos tres: yo; el poema; el destinatario. Este triangulo en acusativo precisa un pequeño examen. Cuando termino un poema, no lo he terminado. En verdad lo abandono, y el poema ya no es mío o, mas exactamente, el poema existe apenas. A partir de ese momento, el triangulo ideal depende del destinatario o lector. Únicamente el lector puede terminar el poema inacabado, rescatar sus múltiples sentidos, agregarle otros nuevos. Terminar equivale, aquí, a dar vida nuevamente, a re-crear.

Cuando escribo, jamás evoco a un lector. Tampoco se me ocurre pensar en el destino de lo que estoy escribiendo. Nunca he buscado al lector, ni antes, ni durante, ni después del poema. Es por esto, creo, que he tenido encuentros imprevistos con verdaderos lectores inesperados, los que me dieron la alegría, la emoción, de saberme comprendida en profundidad. A lo que agrego una frase propicia de Gaston Bachelard: El poeta debe crear su lector y de ninguna manera expresar ideas comunes.

Buenos Aires, 1967

PIZARNIK, p. 299-301


O Poeta e seu poema
Um poema é uma pintura dotada de voz e uma pintura é um poema calado.”
Provérbio oriental

A poesia é o lugar onde tudo se sucede. Como o amor, o humor, o suicídio e todo ato profundamente subversivo, a poesia se desentende do que não é sua liberdade ou verdade. Dizer liberdade ou verdade e referir estas palavras ao mundo em que vivemos ou não vivemos é dizer uma mentira. Não quando se atribui a poesia: lugar onde tudo é possível. Em oposição ao sentimento de exílio, ao de uma espera perpétua a do poema, terra prometida. Cada dia meus poemas são mais breves, pequenos incêndios para quem andou perdida no que me falta.
(...)
Escapam-me aos olhos alguns poucos versos de quem eu se. As coisas reconciliadas, as hostis, as que não cessam de oferecer o desconhecido. E minha sede de sempre, minha fome, meu horror. Deste então a evocação a conjuração. Quanto a inspiração creio nela ortodoxamente, o que não me impede, muito pelo contrário de me concentrar muito tempo num mesmo poema. O faço de uma maneira que recorda talvez, o gesto dos artistas plásticos: insiro a folha de papel numa parede e a contemplo. troco palavras, apago versos. Às vezes, ao riscar uma palavra, imagino outra em seu lugar, mas sem saber qual. Então, a espera da palavra desejada, faço neste vazio um desenho que faça alusão. Este desenho é como um rito. (Agrego que a minha aficção ao silêncio me leva a unir em espírito a poesia com a pintura. Do lugar ao que outros se referem como instante privilegiado, falo de espaço privilegiado. 
(...)
Nos previnem, desde tempos imemoriais, que a poesia é um mistério. Não somente a reconhecemos, como sabemos onde está. Acredito que a pergunta seja: O que é para você a poesia? Merece uma ou outra de estas duas repostas: o silêncio de um livro que relate uma aventura não pouco terrível, a de alguém que inicia a questionar o poema, a poesia, o poético. Abraçar o corpo do poema, para verificar seu poder encantatório, exaltante, revolucionário e consolador. Alguns já nos contaram esta viagem maravilhosa. Quanto a mim, por enquanto é um estudo.

Paris, dezembro de 1962

O poema e seu leitor

Se me perguntam para quem escrevo, me perguntam pelo destinatário de meus poemas. A pergunta garante tacitamente, a existência do personagem. De maneira que somos três: eu, o poema e o destinatário. Este triângulo expositivo precisa de um pequeno exame. Quando termino um poema, não o terminei. Na verdade lhe abandono, e o poema já não é meu, mais precisamente, o poema existe apenas.

A partir deste momento, o triângulo ideal depende do destinatário, ou leitor. Unicamente o leitor pode terminar o poema inacabado, resgatar seus múltiplos sentidos e lhe agregar novos. Terminar equivale aqui, a dar vida novamente, a recriar.

Quando escrevo, jamais evoco o leitor. Nem me passa pelo pensamento o destino do que estou escrevendo. Nunca busquei o leitor, nem antes, nem durante, nem depois do poema. É por isto, creio, que tive encontros imprevistos com verdadeiros leitores inesperados, os que me deram a alegria, a emoção, de saber-me compreendida profundamente. Acrescento uma frase oportuna de Gaston Bachelard: o poeta deve criar seu leitor e de nenhuma maneira expressar ideias comuns.

Buenos Aires, 1967

Tradução: Rafael Walter


PIZARNIK, Alejandra. Prosa Completa; 5ºed. Edicción a cargo de Ana Becciu. Buenos Aires. Editorial Lumen, 2010. 

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

NESTA NOITE, NESTE MUNDO

A Martha Isabel Moia

nesta noite neste mundo
as palavras do sonho da infância da morte
nunca é isso o que um quer dizer
a língua natal castra
a língua é um órgão de conhecimento
do fracasso de qualquer poema
castrado por sua própria língua
que é o órgão da re-criação
do re-conhecimento
mas não da ressureição
de algo ao modo de negação
de meu horizonte de maldoror com seu cão
e nada é promessa
entre aquilo que pode ser dito
que equivale a mentir
(tudo o que se pode dizer é mentira)
o resto é silêncio
e o silêncio não existe

não
palavras
não fazem o amor
fazem a ausência
se digo, água, beberei?
se digo, pão, comerei?

nesta noite neste mundo
extraordinário o silencia desta noite
o que se passa com a alma é o que não se vê
o que se passa com a mente é o que não se vê
o que se passa com o espírito não se vê
de onde vem esta conspiração de invisibilidades?
nenhuma palavra é visível

sombras
recintos viscosos onde se oculta
a pedra da loucura
corredores negros
todos os que percorri
oh! fique mais um pouco entre nós!

minha pessoa está feriria
minha primeira pessoa do singular

escrevo como quem porta um canivete alado ao obscuro
escrevo como digo
a sinceridade absoluta continuaria sendo
o impossível
oh! fique mais um pouco entre nós

os destroços das palavras
desabitando o palácio da linguagem
o conhecimento entre as pernas
o que você fez do dom do sexo?
oh meus mortos
eu os devorei e meu afoguei
não posso mais o não poder

palavras encobertas
tudo desliza
até a negra liquifação

e o câo de maldoror
nesta noite neste mundo
onde tudo é possível
a ressalva
do poema

falo
sabendo que não se trata disso
sempre não se trata disso
oh! me ajude a escrever o poema mais prescindível
o que não sirva nem para
o inútil
me ajude a escrever
palavras
nesta noite neste mund
o

Alejandra Pízarnik
Tradução: Rafael Walter


1º versão: 2013, publicada neste blog.

sábado, 29 de julho de 2017

a junke box engoliu
a minha esperança
e a minhas últimas moedas
cuspindo a canção:
“like a rolling stone”

enquanto eu desabotoava
a camiseta xadrez flanela
para sacar um cigarro de palha

de pronto, o dono do bar contestava:
é proibido fumar lei estadual nº 16239
“não vai jogar?”, perguntou meu adversário,
“mais um gole respondi e
deixe eu dar uma tacada”
mandei a bola sei lá para onde

faltavam três tacadas
e fui liquidado
paguei a outra partida
e pedi logo mais uma dose,
uma cerveja e uma porção
                    [de amendoim

na mesa ao lado
uma linda mulher
me sorriu e me disse
”sorte no jogo, azar no amor”
eu fiz mil planos
e pedimos mais uma cerveja.

sábado, 23 de abril de 2016

guerra é guerra
não há tempo
para trégua
ininterruptamente
avança a destruição
a usina do lucro
e do enlatado

mas não há tempo
para a vida vazia
não há tempo
para o silêncio complacente
há milhares de cabeças rolando
e aqueles que as decepam
poucos estão pensando

na poesia, há os que acreditam
e se escondem nas trincheiras
bradam: - não há por que desistir
a guerra continua
acredite ou não
sempre haverá fogo
na linha de frente

domingo, 14 de fevereiro de 2016

É fato que sua mulher nunca lhe quis
porque você não leu Machado de Assis.

Sem dúvida sua mulher ainda não lhe quer,
porque você nunca leu Charles Baudelaire.

Eu sei que sua mãe é manca,
e que você não ouviu falar de Florbela Espanca.

Eu sei que sua bunda dói,
e que você não terminou o livro do Tolstói.

Eu sei o que você lê ao cagar,
é claro que é um livro de José de Alencar.

Eu sei que seu espírito é bovino,
você não leu Ítalo Calvino.

Eu não vou te mandar tomar no cu,
porque você nunca folheou o Popol Vuh.

Eu sei que sua musa coça a boceta,
ao ler Antonio Skarmeta.

E como você é pedante, citando a Comédia,
sem nunca ter lido Dante.

Sua música preferida do Roberto é a do Cadilac,
porque você nunca pegou uma carona com Kerouac.

Eu sei que seu pensamento é reles,
você nunca leu um poema de Cecília Meireles.

Você é adestrado como um pônei,
nem sequer leu algum texto de Aleister Crowley.

Eu sei que na briga você se esconde,
nunca leu “The cantos” de Erza Pound.

Eu sei por que você não goza,
não entende nada de Guimarães Rosa.

Eu sei que seus amigos são cuzões,
nunca leram um verso de Luís Vaz de Camões.

Você só diz: “Deus me acuda”
e ainda não leu Pablo Neruda.

Você só deixa todo mundo na mão,
não ouviu falar de Wally Salomão.

Eu sei que você não se preza,
não leu o último livro do Cristovão Tezza.

Você tem intestino solto,
não passa da primeira página de Mia Couto.

Para a vida só diz: “quem me dera”,
nunca leu Milan Kundera.

Você é um bosta,
não leu Júlia da Costa.

Você nem sequer ousa,
não conhece um soneto de Cruz e Souza.

Você pensa que tudo é farra,
nunca leu os poemas de Nicanor Parra.

Eu sei que você é um sacana,
não consegue sentir um verso do Quintana.

E tudo que sua mulher lhe diz:
é que prefere quando você a fode do que ler a sua ode.





quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Poemas de Roberto Santoro

Algunas cosas
un viento que se llevó la alegría
y la luna de los dedos
ahora se golpean las cosas con mis ojos
y ventanales de azufre registran la catástrofe

se derrama el misterio como un papel ajado
atropellando nuestro circo de asombro
todo el esperar castillos y brujas para salirnos del cuerpo
como buscando los ángeles
los barriletes huidos
esos interminables bosques de lobos y caperuzas
esas casas de chocolate
de enanos y gigantes
esos silencios de la siesta en que uno cree volver al beso

y cuando echaste no sin esfuerzo los ojos tras la magia
te despiertan
para erigir estatuas que ruedan la mentira
la sinrazón entre bostezos de sangre
el odio pero con nuevas palabras
y todo lo que callo
y todo lo que olvido
y entonces te componen su esfuerzo avinagrado
y creen en los ojos leyendo el abandono
y guardan la estulticia dormida tras la boca
enumerando estrellas
pájaros
canciones

es el momento en que te adentran sus lenguas de huracán
restallando los enigmas que anhelaste
es el momento en que quisieras vestirte de venganza
y hundir sus necios alfabetos
su estar de lacerías
su acopiado cenegal de estiércol
esa ínfima saciedad con el destrozo
el incontrolable idioma con que destierran la vida
robándote el silencio
hiriendo las entrañas de tu sueño
y dejándote como un payaso solo
y entonces te dan ganas de gritar
de no querer el mismo cuerpo
y el escalofrío del insulto se queda como un tonto por los ojos
y se te desgarra adentro como una cosa inquieta
y entonces te dan unas ganas raras de llorar
de caerte muerto
y convertirte en globo
o en lluvia de organitos
qué sé yo

cada día se nos muere un hermano

Algumas coisas

um vento que levou a alegria
e a lua dos dedos
agora se golpeiam as coisas contra meus olhos
e vendavais de enxofre registram a catástrofe

se derrama o mistério como um papel alado
atropelando nosso circo de assombro
todo o esperar de castelos e bruxas para sairmos do corpo
como que buscando os anjos
os barris furados
esses intermináveis bosques de lobos e capuzes
essas casas de chocolate
de anões gigantes
esses silêncios da cesta em que um crê voltar ao beijo
e quando rompeste não sem esforço os olhos da magia
te despertam
para construir estátuas que cercam a mentira
a irracionalidade do espalhamento de sangue
o ódio, mas com novas palavras
e tudo que calo
e tudo que esqueço
e então te compõem seu suor diário
e crêem nos olhos lendo o abandono
e guardam o tóxico adormecido atrás da boca
enumerando estrelas
pássaros
canções
é o momento em que se adentram suas línguas de furacão
retalhando os enigmas que escolheste
é o momento em que quiseras vestir-te de vingança
e fundir seus néscios alfabetos
seu estar de adorno
seu estoque atolado de bosta
sua satisfação com os destroços
o incontrolável idioma com que desterram a vida
roubando-te o silêncio
ferindo as entranhas de teu sonho
e deixando-te palhaço solitário
e então te dá vontade de gritar
de não querer o mesmo corpo
e o calafrio do insulto fica cambaleando pelos olhos
e te desgarras adentro como uma coisa inquieta
e então te dá vontade de chorar
de cair morto
e converter-se em balão
ou em chuva de notas musicais
sabe-se lá o que
a cada dia que passa nos morre um irmão

safári

la poesia es uma escopeta
de dos caños

uno apunta a la verdad
el otro a la belleza

dispare

safári


a poesia é uma escopeta
de dois canos

um aponta para a verdade
o outro para a beleza

dispare

VIII

Hoy,
después de ver a una mujer
dejar caer a su hijo a través de una ranura
y disparar con su miedo a la oficina.

Hoy justamente
que un militar le prendio fuego a una biblioteca
y un funcionario se masturbaba al pie de una secretaria

Hoy,
precisamente hoy
que el juez de turno hizo pis arriba de los libros
y un colectivo mató una mariposa

Hoy que una muchacha me vendía sexo por un café con leche
y yo le hablaba de poesía.

Hoy,
exactamente hoy,
tuve que tirar el corazón por la ventana.

VIII

Hoje,
depois de ver uma mulher
deixar cair seu filho pela vulva
e disparar com medo ao escritório

Hoje justamente,
que um militar fez fogueira de uma biblioteca
e um funcionário tocava uma, ao pé de uma secretária

Hoje,
precisamente hoje
que o juiz mijou em cima dos livros
e um ônibus atropelou uma mariposa

Hoje que uma menina me vendia seu sexo por um pingado
e eu lhe falava de poesia.

Hoje,
exatamente hoje
tive de lançar meu coração pela janela.

Tradução: Rafael Walter


Roberto Santoro (1938- ? ) nasceu em Buenos Aíres, onde sempre lutou pelo ideal coletivo. Autor de diversos livros de poemas, sempre ilustrados por artistas como Pedro Gaeta e Oscar Smoje. Foi parceiro musical de Raúl Parentella, Lorenzo Quinteros e Jorge Cutello, foi editor de discos e também diretor teatral. Foi o “alma mater” da revista Barrilete e da editorial “Papeles de Bs. As.”. Membro do Partido Revolucionário dos Trabalhadores, militou ativamente na Frente dos Trabalhadores e da Cultura e na Frente Antiimperialista junto a Haroldo Conti e Humberto Constantini. No dia 1º de junho foi seqüestrado por um grupo executor de ordens da ditadura. Até hoje permanece desaparecido. 

domingo, 11 de outubro de 2015

marchinha para o carnaval de 2016

comprei minha geladeira
em vinte vezes no cartão
ta fácil não
ta fácil não

a minha vida é a prestação

ta fácil não 
ta fácil não
tá fácil não

somente o samba 

para remediar a situação
tá fácil não
tá fácil não

eu sigo a vida

e repito esse refrão
tá fácil não 
tá fácil não

a geladeira está fria

igual meu coração
tá fácil não
tá fácil não