domingo, 19 de setembro de 2010

RECITAL DE POESIA SIMBOLISTA
Domingo, dia 26 de setembro às 20h no Realejo Bar,
Rua Cel. Dulcídio 1860, esquina com Petit Carneiro no Água Verde.
Realejo Bar, rua Cel. Dulcídio 1860, esquina com Petit Carneiro no Água Verde.



provável repertório a ser por mim apresentado




POESIA SIMBOLISTA


- Arthur Rimbaud
- Charles Baudelaire
- Cruz & Souza
- Dario Vellozo
- Emiliano Perneta
- Stéphane Mallarmé


Curitiba, primavera 2010.











XI
O azar

Castigo assim tornar tão leve
Somente a Sísifo se cobra!
Por mais que mão se ponha à obra,
A Arte é longo e o Tempo é breve.

Longe dos túmulos famosos,
Num cemitério já sepulto,
Meu coração, tambor oculto,
Percute acordes dolorosos.

- Muito ouro ali jaz sonolento
em meio à treva e ao esquecimento,
esquivo à sonda e ao enxadão;

E muita flor exala a medo
Seu perfume como um segredo
Nas mais profunda solidão.

(Baudelaire, Charles. As flores do mal – tradução: Ivan Junqueira. Rio de Janeiro. Editora Nova Fronteira. 2006)








XX
A máscara

Estátua alegórica ao gosto da renascença
A Ernest Cristophe, estatuário
Contempla esse perfil de graças florentinas;
Na sóbria ondulação do corpo musculoso
Excedem Força e Proporção, irmãs divinas.
Essa mulher, fração de um ser miraculoso,
Divinamente forte, amavelmente pobre,
Criada foi para no leito arder em gozo,
Saciando os ócios de um pontífice ou de um nobre.

- Repara-lhe o sorriso fino e voluptuoso
onde a vaidade aflora e em êxtase perdura;
Esse lânguido olhar oblíquo e desdenhoso,
Esse rosto sutil, na gaze da moldura,
Cujos traços nos dizem com ar vitorioso:
"A Volúpia me chama e o Amor cinge-me a testa!"
Ao ser que esplende assim com lúbrica realeza
Vê que encanto febril a formosura empresta!
Chega mais próximo e circunda-lhe a beleza.

Ó que blasfêmia da arte! Ó que assombro fatal!
A divina mulher, que ao prazer nos enlaça,
Lá no alto se transmuda em monstro bifrontal!
- Não! É uma máscara, uma sórdida trapaça,
Essa face torcida e de esquisito aspecto,
E, repara, também crispada ferozmente,
A cabeça concreta, o rosto circunspecto
Oculto por detrás do semblante que mente.
Ó mísera beleza! O magnífico rio
De teu pranto deságua ao pá de meus abrolhos;
Teu embuste me embriaga, e minha alma sacio
Nessas ondas que a Dor faz jorrar de teus olhos!

Mas por que chora enfim a beleza absoluta
Que a seus pés tem o ser humano submetido,
Que misterioso mal lhe rói o flanco em luta?

- Ela chora, insensata, por haver vivido!
E por viver ainda! E o que ela mais deplora,
O que a faz ajoelhar-se em frêmito feroz,
É que amanhã há de estar viva como agora!
Amanhã e depois e sempre! - como nós!

(Baudelaire, Charles. As flores do mal – tradução: Ivan Junqueira. Rio de Janeiro. Editora Nova Fronteira. 2006)



Lésbia


Cróton selvagem, tinhorão lascivo,
planta mortal, carnívora, sangrenta,
da tua carne báquica rebenta
a vermelha explosão de um sangue vivo.

Nesse lábio mordente e convulsivo,
ri, ri, risadas de expressão violenta
o Amor, trágico e triste, e passa, lenta,
a morte, o espasmo gélido, aflitivo...

Lésbia nervosa, fascinante e doente,
cruel e demoníaca serpente
das flamejantes atrações do gozo.

Dos teus seios acídulos, amargos,
fluem capros aromas e os letargos,
os ópios de um luar tuberculose...

(Souza, Cruz &. Poesias Completas- Broqueis. São Paulo. Publifolha. 1997)


Lírio Astral


Lírio astral, ó lírio branco
Ó lírio astral,
No meu derradeiro arranco
Sê cordial!

Perfuma de graça leve
O meu final
Com o doce perfume breve,
Ó lírio astral!

Dá-me esse óleo sacrossanto
Toda a caudal
Do óleo casto do teu pranto,
Ó lírio astral!

Traz-me o alivio dos alívios,
Ó virginal,
Ó lírio dos lírios níveos,
Ó Lírio astral!

Dentre as sonatas da lua
Celestial,
Lírio, vem, Lírio, flutua,
Ó Lírio astral!

Dos raios das noites de ouro,
Do Roseiral,
Do constelado tesouro,
Ó lírio astral!

Desprende o fino perfume
Etereal
E vem do celeste fume,
Ó lírio astral!

Da maviosa suavidade
Do céu floral
Traz a meiga claridade,
Ó lírio astral!

Que bendita e sempre pura
E divinal
Seja-me a tua frescura,
Ó lírio astral!

Que ela, enfim, me transfigure,
Na hora fatal
E os meus sentidos apure,
Ó lírio astral!

Que tudo que me é avaro
De luz vital,
Nessa hora se tome claro,
Ó lírio astral!

Que portas de astros, rasgadas
Num céu lirial,
Eu veja desassombradas,
Ó lírio astral!

Que eu possa, tranqüilo, vê-las,
Limpo do mal,
Essas mil portas de estrelas
Ó lírio astral!

E penetrar nelas, calmo,
Na paz mortal,
Como um davídico salmo,
O lírio astral!

Vento velho que soluça
Meu Sonho ideal,
No Infinito se debruça,
Ó lírio astral!

Por isso, lá, no Momento,
Na hora fetal,
Perfuma esse velho vento
Ó lírio astral!

Traz a graça do Infinito,
Graça imortal,
Ao velho Sonho proscrito,
Ó lírio astral!

Adoça-me o derradeiro
Sonho feral
O lírio do astral Cruzeiro
Ó lírio astral!

Se, o Lírio, ó doce Lírio
De luz boreal
Na morte o meu claro círio,
Ó lírio astral!

Perfuma, Lírio, perfume,
Na hora glacial,
Meu Sonho de Sol, de Bruma,
Ó lírio astral!

Que eu suba na tua essência
Sacramental
Para a excelsa Transcendência,
Ó lírio astral!

E lá, nas Messes divinas,
Paire, eternal,
Nas Esferas cristalinas,
Ó lírio astral!

(Souza, Cruz &. Poesias Completas- Faróis. São Paulo. Publifolha. 1997)




O Assinalado


Tu és o louco da imortal loucura,
O louco da loucura mais suprema.
A Terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema Desventura.

Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma Desventura extrema
Faz que tu'alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.

Tu és o Poeta, o grande Assinalado
Que povoas o mundo despovoado,
De belezas etrenas, pouco a pouco...

Na Natureza prodigiosa e rica
Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!

(Souza, Cruz &. Poesias Completas- Últimos Sonetos. São Paulo. Publifolha. 1997)











Sexta-feira Santa

Lua absíntica, verde, feiticeira,
Pasmada como um vício mosntruoso...
Um cão estranho fuça na esterqueira,
Uivando para o espaç fabuloso.

É esta a negra e santa Sexta-Feira!
Cristo está morto, como um vil leproso,
Chagado e frio, na feroz cegueira
Da morte, o sangue roxo e tenebroso.

A serpente do mal e do pecado
Um sinistro veneno esverdeado
Verte do Morto na mudez serena.

Mas da sagrada Redenção do Cristo,
Em vez do grande Amor, puro, imprevisto,
Brotam fosforescências de gangrena!

(Souza, Cruz &. Poesias Completas- Últimos Sonetos. São Paulo. Publifolha. 1997)












A BOA ESTRELA


Ao Aluízio França

Em criança, um dia, consciência pura,
Mostraram-me a estrela da minha ventura.

Ansiado e doido, corri para vê-la...
E vi-a. Que linda, que doirada estrela!

Lembra-me: mais tarde, consciência langue,
Olhei-a. Ela estava coberta de sangue...

Afinal perdido de todo quis eu
Inda olhar e vê-la. Desapareceu....

(Perneta, Emiliano.Ilusão & outros poemas. Curitiba. Prefeitura Municipal. 1996)








Esphynge


A Sylvia Carneiro

Quando, Ao cahir das tardes merencoreas,
Vésper fluctua nos ocasos limpidos,
Sereno o olhar de fluidas esmeraldas;
Invade-me a saudade!

A sombra emerge da campina e sobe,
Extende as azas negras no infinito;
Coa-se a luz das tremulas estrelas,
Perdidos pyrilampos.

A meos olhos de asceta uma
A’ fronte o brilho dos iniciados,
Azas de luto, garras de chimera:
Esphynge!

Vem da terra de Kemi ou vem da Atlântida?
Traz dos Mysterios o suave aroma...
Evoca os lótus... faz sonhar os Deozes
E os magos da Chaldea.

Avulta, avulta, os olhos magnéticos
Numa fascinação irresistível;
E seo olhar me pouza enigmático,
Cheio de arcanos.

Depois dous hortos vejo-lhe nos olhos,
Dous paraizos nuançando encantos,
Supplicas feitas de caricias flébeis,
Humílima pergunta.

Tem o attrativo da Theano hellenica,
A meiguice de Sapho, a peregrina
Formosura da Vênus de Corintho,
A bondade do Buddha.

Mas, não traduz em phrases a pergnta.
Não revela o mysterio de sua alma;
Antes soffre em silencio e , meiga e dúctil,
Sorri apenas!

Sorri! Quem pode interpretar-lhe o riso?
Quem o segredo conhecer-lhe e a magoa?
Olhos e riso de onde voam juntas
A esperança e a tristeza.

Não é feita de argila, é feita de ether,
Da fina essência das estrellas castas;
Sobre os instinctos radiosa fulge,
Flor de harmonia.

Não pertence aos mortaes, pertence aos gênios,
Longe dos cyclos da matéria densa;
Nasceo para brilhar nos santuários
De Delphos e de Elesius.

Podesse o asceta conhecer-lhe o arcano!
Podesse o vate alcandorar-te, ó Muza!
E não serias, qual te vejo sempre,
ESPHYNGE!
Retiro Saudoso, 8 Nov. 1909.

(Vellozo, Dario. Cinerario. Coritiba. Edição do autor. 1929)




“Rápido! existem outras vidas? – O sono na riqueza é impossível. A riqueza sempre foi bem público. Só o amor divino outorga as chaves do conhecimento. Vejo que a natureza não é um espetáculo de bondade. Adeus, quimeras, ideais, erros.
O canto sensato dos anjos se ergue do navio salvador: é o amor divino. – Dois amores! Posso morrer do amor terrestre, morrer de devotamento. Abandonei almas cuja pena aumentou com a minha partida! Me escolheste entre os náufragos. Os que ficaram não são meus amigos?
Salvai-os!
Nasce-me a razão. O mundo é bom. Abençoarei a vida. Amarei meus irmãos. Não são promessas de infância. Nem a esperança de escapar à velhice e à morte. Deus faz a minha força, e eu louvo a Deus.”


(Arthur Rimbaud. Uma temporada no inferno. Porto Alegre. Editora L&PM, 1997)




BRISA MARINHA

A carne é triste, sim, e eu li todos os livros.
Fugir! Fugir! Sinto que os pássaros são livres,
Ébrios de se entregar à espuma e aos céus
[ imensos.
Nada, nem os jardins dentro do olhar suspensos,
Impede o coração de submergir no mar
Ó noites! nem a luz deserta a iluminar
Este papel vazio com seu branco anseio,
Nem a jovem mulher que preme o filho ao seio.
Eu partirei! Vapor a balouçar nas vagas,
Ergue a âncora em prol das mais estranhas
[ plagas!

Um Tédio, desolado por cruéis silêncios,
Ainda crê no derradeiro adeus dos lenços!
E é possível que os mastros, entre ondas más,
Rompam-se ao vento sobre os náufragos, sem
[ mas-
Tros, sem mastros, nem ilhas férteis a vogar...
Mas, ó meu peito, ouve a canção que vem do
[ mar!

(Mallarmé, Stéphane. Mallarmé – Tradução Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos. São Paulo. Editora Perspectiva. 1974)

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