sexta-feira, 1 de outubro de 2010

não envie flores

não quero receber
duas iguanas pelo correio

nem correntes de e-mail
muito menos uma orelha
ensangüentada num potinho

a pedir resgate ao pobre amigo
que conta moedas
para um cafezinho

não envie cartões de natal
felicitações e saudosismos
coisas que só vovó pode fazer
não me deixe passando mal

me telefone, só se for para dizer
que sou vencedor único
da loteria federal

para que a vida não desabe
em plena quarta-feira

em que o procedimento burocrático
fez do móvel
estático

mas não calou a voz
do desejo atroz
de comunicar

a palavra: manifesto
o indigesto da folha branca
que consome até as entranhas

pare de manha
e fale na cara logo de uma vez

antes que seja tarde
e só exista
                      
talvez





colar cartazes
colar cartazes
colar cartazes

                       postes como layout

de nosso recital
que não é de natal

*



As alturas
                 meu corpo vai
quando leio
                   George Bataille

*


excremento

o inverso
o que peço
a ânsia
o vômito
o que somos
em essência
que pensa
ser algo
mais do que
merda




*



o anão
sim
por que não?



*



I

moscas que passeiam
sobre a mesa fosca

buscam o resto de nada
como se ali houvesse alguma coisa
coisa alguma quando penso
ser aquilo mais que o humano

II

por ter asas
e respirar as brasas

por captar
nas antenas

o imperceptível
microscópico

no imundo excremento
um mundo



 *


engula

vamos escrever
poemas aos montes
transformar
moinhos em fontes
beber
a sede amarga
da febre
a palavra em manifesto
a festa
diante do patético
estético estático
do governo
que vigora
que pensa que arte
é subproduto
e não identidade
de um povo

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