quarta-feira, 3 de novembro de 2010

protagonismo do absurdo

                                               Para Billy Joe & Lauana, e aquele que ainda não veio
                                                                           “                       .. Ele ferve em fúria
                                                                  e não distingue mais o antes do depois...”
                                                                                                       Canto I – Ilíada
                                                                                                                    Homero

você me pergunta sobre o sentido da vida
como quem pergunta se deve virar
à direita ou à esquerda

e se acaso
fossemos mais que a rosa dos ventos
e o relógio da parede

[...]


E métodos anticonceptivos mil injetáveis e não sei que masculino e o planejamento familiar, não colocar a vida das pessoas em risco como ter e não ter filho coisa interessante e tal e me falaram que foram mães na adolescência questionários e adereços o álcool conhecimento, digo alto!
Filhos como coelhos – crescimento vegetativo, planejamento familiar não ajuntamento gravidez indesejada pariu et.                                                                               Etecetera
                                                                                                                                     e tal
elucubrações sobre a progenitura projeção
criatura
cópia
xérox
imagem e semelhança
criança nos braços berra e quer mamá!
mamá mamãe mamá mamãe mamá!
e benefícios para aqueles que vem
fortuna em breve
comprar felicidade nas casas Bahia
crediário para família
e fogem os números meus dedos viciados que buscam o telefone da garota em desespero o de mamãe [...]
até quando breve breve tipo como quem diz eu tenho um plano, sim?
aquilo que está próximo – ao lado
não discursos de como viver de amor e não ganhar dinheiro
viver de vento
para onde soprar
em frente
alguém ao lado diz amém assim seja
acredito em você e vou postergar isso
sob a sombra hipotética sopram palavras ao vento vibram significados como estrelas, basta enxergar abraçar o mundo cagar no inferno beijar o céu imaginar o paraíso – numa moldura, areia para todos os lados, paisagem sonora: ondas que seguem e me dizem calmaria pinguins sorriem e dizem sim beijam meus pés
enrole o próximo momento, a fumaça diz o tempo, enquanto há
hoje amanhã quando
sem olhar pros ponteiros
ou estabelecer delimitações territoriais
tipo Bandeira dizendo
"teu corpo a única ilha no oceano de meu desejo"
coisa de cinza das horas? *
nem Álvares se lamentando em decassílabos heptassilabos e versinhos contados nos dedos
sílabas como lágrimas
nem Bilac narrando novelas amorosas de néscias fúteis que querem todas as coisas do mundo
camaleões amorosos
na fauna flora solidão.
Ah! sem essa de patinho feio se lamentando ou dizendo coisas como se ou histórias da carochinha

tensão superficial no ar
não na água



beijar o infinito
sussurrar o vento
e coisa e tal
da matéria insubstancial
tirar do cabide o sonho
ficar nu que seja
assim sem um centavo no bolso dizer te amo
como quem pede socorro
fogo!
fogo!
fogo!
água por todos os lados sem processos burocráticos como cartórios algemas
fritar ovo quando quiser
alimentar-se de vento
cata-vento
multicolorido
acaso disse alguma coisa?
como empacotar tudo e ir embora
sete palmas profundeza
eis o sentido
coisa mais óbvia
como catalogar a própria vida num baú
memória aos deslembrados
eu gosto dos deslembrados
palavras sem beletrismo
como arrotar quintessências
filtrar os absurdos
expandir as dúvidas
até virar um ponto de interrogação
por que não?
queria ser uma enciclopédia
e ao mesmo tempo não falar sobre nada
agora entra uma voz tipo Cid Moreira:
– uma fuga do discurso amoroso
ao mesmo tempo a busca de um romance
com pelo menos um sorriso
sem o dono do bar para dizer que mulher não vale um centavo enquanto serve a dama da mesa
doses de ego quando necessárias
homeopáticas de preferência
tipo narciso de saias se vê no espelho do carro da loja do banheiro
o seu reflexo
como imagem sacrossanta
o padre a pedir moedinhas
um objeto e as imagens que se constroem sobre ele
versus o que é
a idéia de ser e escolha
não como algo imposto
sem governo
a favor do vento
onde der
acreditar
comercial (pausa para o café)
e não sorria dizendo [...]
melhor é conjugar o verbo foda-se até as alturas

a igreja do rosário
pedintes para nobres ouvintes
que os brinde com um sorriso dizendo
que ainda existe algo humano
humanidade?
Escravidão
máquinas versus humano

e fazer sempre manuscritos
onde resiste a tradição
e fazer sexo
com as palavras
línguas
lábios
pedir ao garçom o fim do texto
antes,
roçar o impalpável
dizer que há algo puro no lixo

dizer te amo
não como quem aperta um botão
ou puxa a descarga

e percebeu que a vida não era um mar de rosas
quando em vez de cartas de amor
recebia cobranças

ou over, ou verdades
ver doses

*(Homero;  tradução Haroldo de Campos. Ilíada vol.1. 4°edição. São Paulo. Editora Arx. 2003)

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