sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

do Canto Segundo dos Cantos de Maldoror de Lautréamont

“Então, nada alcançarás. Os meios virtuosos e bem intencionados não levam a
nada. É preciso por em ação alavancas mais enérgicas e tramas mais sábias.
Antes que te tornes célebre pela virtude, e assim alcances tua meta, uma centena
de outros terá tido tempo de saltar sobre tuas costas, e chegar ao fim da corrida
antes de ti, de forma que não haverá mais lugar para suas idéias estreitas. É preciso saber abarcar, com maior grandeza, o horizonte do tempo presente.”  p.120


“Meus anos não são numerosos, e no entanto, já sinto que a bondade não passa de uma reunião de sílabas sonoras: não a  encontrei em parte alguma.”  p. 143


“Do alto do rochedo, o homem  da saliva salobra se atira ao mar, e nada rumo ao tapete agradavelmente colorido, segurando em sua mão esse facão de aço que nunca o abandona. Agora cada tubarão tem um  contendor pela frente. Avança sobre seu adversário fatigado, e, sem pressa, enterra em seu ventre a afiada lâmina. A fortaleza móvel se livra facilmente do último adversário... Encontram-se frente a frente, o nadador e a fêmea de tubarão, salva por ele. Olham-se nos olhos, por alguns minutos; e ambos se espantaram por encontrar tamanha felicidade um no outro. Dão voltas nadando, não se perdem de vista, e se dizem: “Enganei-me até hoje; aí está alguém que é mais malvado”. Então, de comum acordo, entre duas águas, deslizaram um para o outro, com uma admiração mútua, a fêmea do tubarão afastando as águas com suas nadadeiras, Maldoror batendo a onda com seus braços; e retiveram seu fôlego, em uma veneração profunda, cada qual desejoso de contemplar, pela primeira vez, seu retrato vivo. Chegados a três metros de distância, sem qualquer esforço, caíram bruscamente um contra o outro, como dois ímãs, e se abraçaram com dignidade e reconhecimento, em um amplexo tão terno como o de um irmão ou irmã. Os desejos carnais seguiram de perto essa demonstração de amizade. Duas coxas nervosas se colaram estreitamente à pele viscosa do monstro, como duas sanguessugas; e, os braços e as nadadeiras entrelaçados ao redor do corpo do objeto amado, rodeando-o com amor, enquanto suas gargantas e seus peitos logo formavam coisa alguma, a não ser uma massa glauca, com exalações de sargaços; no meio da tempestade que continua a provocar estragos; à luz dos relâmpagos; tendo por leito de himeneu a vaga espumosa, transportados por uma corrente submarina como em um berço, rolando sobre si mesmos, rumo às profundezas desconhecidas do abismo, juntaram-se em uma cópula longa, casta e horrorosa! ... Finalmente, acabava de encontrar alguém semelhante a mim!... Finalmente, acabava de encontrar alguém semelhante a mim!... De agora em diante, não estava mais só na vida!... Ela tinha as mesmas idéias que eu!... Estava diante do meu primeiro amor!” p.149



“Dou-lhe a mesma atenção. Se quisesse aproveitar a ocasião, que se apresenta, de sutilizar essas discussões poéticas, acrescentarei que dou mais importância a palha que à consciência; pois a palha é útil para o gado que a rumina, enquanto a consciência só sabe mostrar suas garras de aço.” p.155


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