sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

EN ESTA NOCHE, EN ESTE MUNDO




A Martha Isabel Moia


en esta noche en este mundo
las palabras del sueño de la infancia de la muerte
nunca es eso lo que uno quiere decir
la lengua nata castra
la lengua es un órgano de conocimiento
del fracaso de todo poema
castrado por su propia lengua
que es el órgano de la re-creación
del re-conocimiento
pero no el de la resurrección
de algo a modo de negación
de mi horizonte de maldoror con su perro
y nada es promesa
entre lo decible
que equivale a mentir
(todo lo que se puede decir es mentira)
el resto es silencio
sólo que el silencio no existe

no 
palabras
no hacen el amor

hacen la ausencia
si digo agua ¿beberé?
si digo pan ¿comeré?

en esta noche en este mundo
extraordinario silencio el de esta noche
lo que pasa con el alma es que no se ve
lo que pasa con la mente es que no se ve
lo que pasa con el espíritu es que no se ve
¿de dónde viene esta conspiración de invisbilidades?
ninguna palabra es visible

sombras
recintos viscosos donde se oculta
la piedra de la locura
corredores negros
los he corrido todos
¡oh quédate un poco más entre nosotros!

mi persona está herida
mi primera persona del singular

escribo como quien con un cuchillo alzado en la oscuridad
escribo como estoy diciendo
la sinceridad absoluta continuaría siendo
lo imposible
¡oh quédate un poco más entre nosotros!

los deterioros de las palabras
deshabitando el palacio del lenguaje
el conocimiento entre las piernas
¿qué hiciste del don del sexo?
oh mis muertos
me los comí me atraganté
no puedo más de no poder

palabras embozadas
todo se desliza
hacia la negra licuefacción

y el perro del maldoror
en esta noche en este mundo
donde todo es posible
salvo
el poema

hablo
sabiendo que no se trata de eso
siempre no se trata de eso
oh ayúdame a escribir el poema más prescindible
el que no sirva ni para
ser inservible
ayúdame a escribir palabras
en esta noche en este mundo



NESTA NOITE, NESTE MUNDO


                                   A Martha Isabel Moia


nesta noite neste mundo
as palavras do sonho da infância e da morte
nunca é isso que quer dizer
a língua natal castra
a língua é um órgão do conhecimento
do fracasso de todo poema
castrado por sua própria língua
que é o órgão da recriação
do re-conhecimento
mas não o da ressurreição
de algo a modo de negação
do meu horizonte de maldoror com seu cão
e nada e promessa
entre o que se pode dizer
que equivale a mentir
(tudo o que se pode dizer é mentira)
o resto é silêncio
só que o silêncio não existe

não
as palavras
não fazem amor

fazem ausência
se digo água, beberei?
se digo pão, comerei?

nesta noite neste mundo
extraordinário silêncio dessa noite
o que passa com a alma é o que não se vê
o que passa com a mente é o que não se vê
o que passa com a espírito é o que não se vê
de onde vem esta conspiração de invisibilidades?
nenhuma palavra é invisível

sombras
recintos viscosos de onde se oculta
a pedra da loucura
corredores negros
a todos que recorri
oh, fique um pouco mais entre nós!
minha pessoa está ferida
minha primeira pessoa do singular

escrevo como quem com uma faca erguida a escuridão
escrevo como estou dizendo
a sinceridade absoluta continuaria sendo
o impossível
oh, fica um pouco mais entre nós!

os detritos das palavras
desabitando o palácio da linguagem
o conhecimento entre as pernas
que eu fiz do dom do sexo?
oh, fica um pouco mais entre nós!

os detritos das palavras
desabitando o palácio da linguagem
o conhecimento entre as pernas
que fiz do dom do sexo?
oh meus mortos,
eu os comi me engasguei
não posso mais de não poder mais

palavras entrincheiradas
tudo se desliza
até a liquefação

e o cão de maldoror
nesta noite neste mundo
onde tudo é possível
salvo o poema

falo
sabendo que não se trata disso
sempre não se trata disso
oh, ajuda-me a escrever o poema mais prescindível
         o que não sirva nem para
         ser inútil
ajuda-me a escrever palavras
nesta noite neste mundo



tradução p/ o português rafael walter


pizarnik, alejandra. poesía completa (1955-1972): edición a cargo de ana becciu. bs.as. 2011



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