quarta-feira, 27 de setembro de 2017

NESTA NOITE, NESTE MUNDO

A Martha Isabel Moia

nesta noite neste mundo
as palavras do sonho da infância da morte
nunca é isso o que um quer dizer
a língua natal castra
a língua é um órgão de conhecimento
do fracasso de qualquer poema
castrado por sua própria língua
que é o órgão da re-criação
do re-conhecimento
mas não da ressureição
de algo ao modo de negação
de meu horizonte de maldoror com seu cão
e nada é promessa
entre aquilo que pode ser dito
que equivale a mentir
(tudo o que se pode dizer é mentira)
o resto é silêncio
e o silêncio não existe

não
palavras
não fazem o amor
fazem a ausência
se digo, água, beberei?
se digo, pão, comerei?

nesta noite neste mundo
extraordinário o silencia desta noite
o que se passa com a alma é o que não se vê
o que se passa com a mente é o que não se vê
o que se passa com o espírito não se vê
de onde vem esta conspiração de invisibilidades?
nenhuma palavra é visível

sombras
recintos viscosos onde se oculta
a pedra da loucura
corredores negros
todos os que percorri
oh! fique mais um pouco entre nós!

minha pessoa está feriria
minha primeira pessoa do singular

escrevo como quem porta um canivete alado ao obscuro
escrevo como digo
a sinceridade absoluta continuaria sendo
o impossível
oh! fique mais um pouco entre nós

os destroços das palavras
desabitando o palácio da linguagem
o conhecimento entre as pernas
o que você fez do dom do sexo?
oh meus mortos
eu os devorei e meu afoguei
não posso mais o não poder

palavras encobertas
tudo desliza
até a negra liquifação

e o câo de maldoror
nesta noite neste mundo
onde tudo é possível
a ressalva
do poema

falo
sabendo que não se trata disso
sempre não se trata disso
oh! me ajude a escrever o poema mais prescindível
o que não sirva nem para
o inútil
me ajude a escrever
palavras
nesta noite neste mund
o

Alejandra Pízarnik
Tradução: Rafael Walter


1º versão: 2013, publicada neste blog.

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